Crescer é a maior armadilha em que um ser humano pode se meter. Se soubesse disso, ao invés de tentar ficar branco o Michael tentaria é ter ficado criança para sempre. Por vezes na vida, olho o mundo através do meu corpo de adulto e penso que pegaria fácil um atalho no tempo. Mas não sei se para a minha infância. No meu caso, talvez fosse caso de nascer de novo ou apenas de ter me divertido mais.

Crescer é uma armadilha e todos sabemos disso. Quem nunca sentiu saudades de ter como maior tormenta uma semana de provas, achar que se é milionário com 50 reais e poder tomar Toddynho em qualquer lugar, sem se constranger? A infância é nostalgia pura. É o tempo bom que não volta nunca mais. É o refúgio das suas melhores ideias.

"Se o Michael tivesse lido este post, teria arranjado um jeito de ficar assim para sempre"

“Se o Michael tivesse lido este post, teria arranjado um jeito de ficar assim para sempre”

Mas se o tempo é implacável e não podemos rebobinar este filme que protagonizamos, uma biografia brasileira que chamamos de vida, ainda temos uma chance de seguir o conselho mais otário dos gurus criativos: permitir-se ser criança.

Pois bem, era dia de semana e, por acidente, acabei caindo nisso. As crianças curitibanas da década de 90 tornaram-se adultos, arranjaram empregos, abandonaram seus Ortopés, se empolgaram com a chegada do Outback na cidade e, desde então, sempre arranjam um bom motivo para estar lá.

Eu, particularmente, sempre achei o Outback meio “overrated”, mesmo fora do Brasil (aqui apliquei minhas técnicas de como ser um coxinha em 100 caracteres) e comendo carne, confesso, já usei aquela faca imensa para cortar coisas mais desafiadoras do que um pãozinho. Mas deve haver algo de bom por lá para tanta gente gostar. Desde que abriu, já recebi alguns muitos convites para ir lá, escapei de vários, mas outros não tem como recusar – mesmo não gostando da comida, da simpatia forçada, achando caro e não encontrando praticamente nenhuma opção vegetariana, as vezes, as companhias compensam isso tudo.

“Bacon na batata. Isso é Outback!”

“Bacon na batata. Isso é Outback!”

 

E dentro desta ideia, já consegui me virar nos trinta. Houve um tempo em que dava para comer uma massa, mas ela sumiu do cardápio. Aperitivos como a cebola sempre salvam a noite, mas colocam sua vida em risco. Depois de um tempo, passei a me entupir de couvert e me alimentar das guarnições alheias. Uma questão de sobrevivência, não de gosto. Um jogo de cintura que sempre costumou viabilizar a noite, mas ainda assim a um preço muito caro.

Era dia de semana quando recebo mais um convite para jantar por lá. Aceito, naquela ideia da companhia. Mas dirijo em direção ao shopping com a barriga roncando e o bolso sofrendo, a noite seria complexa. Chego ao restaurante, encontro namorada e família. Era preciso esperar pela mesa. Passam alguns minutos, o pequeno disco voador é acionado, anunciando que temos onde sentar.

No caminho em direção a mesa, observo as pessoas jantando na ala ao meu lado. Um casal jovem com cara de quem não se beija, jogadores do Coritiba, uma família com descendência alemã. A mesa da Bavária me chama a atenção, a cor amarela era predominante. Passo o olhar pelos cabelos, roupas, pratos, copos, até que fixo a atenção em uma menina de aproximadamente 4 anos.

“Dica de sobrevivência #0001: fica de olho nus alemão"

“Dica de sobrevivência #0001: fica de olho nus alemão”

 

Ela tinha cabelos e olhos claros, parecia educada. Comia calmamente, não gritava. Não era do tipo de criança que se esbaldava no Habib’s. Comia de garfo e faca. No seu prato não haviam fritas, muito menos sanduíches. . Parecia Mac and Cheese. Pensei, essa criança acabou de desbravar a nova dica do Contrafilé.

Sentamos à mesa e logo recebemos o garçom treinado para ser um tipo americanoaustralianoengraçado e nossos cardápios. Com foco germânico, manejo as páginas em busca do prato dourado. Nada encontro. Fecho o cardápio, abro novamente (tentei aplicar aquela técnica de reiniciar o PC para tirar os bugs). Nada. Nenhuma opção de massa, algumas guarnições. Os presentes na mesa já começam a me ajudar a planejar como montar um refeição com apenas acompanhamentos. Mas não. Decidi acreditar na esperança infantil e não aceitar desta vez.

O garçom volta à mesa acompanhado de uma garçonete para anotar os pedidos. Deixo a vergonha adulta de lado, aponto para a pequena tiroleza e pergunto: aquilo é Mac and Cheese? Recebo a confirmação da atendente e a desafio – mas não tem no cardápio.
Teria a menina de 4 anos passado a perna no Contrafilé e conseguido que a cozinha de uma franquia preparasse um prato sob demanda? A atendente responde: não tem mesmo. O cardápio das crianças é diferente.

“Preste a atenção no que ela disse: o cardápio das crianças é diferente”

“Preste a atenção no que ela disse: o cardápio das crianças é diferente”

Ao ouvir isso, vejo a oportunidade de voltar no tempo em minha frente e pergunto: posso ver este cardápio e pedir coisas dele? Ela me olha sem entender muito, mas respeita minha síndrome de Peter Pan: já trago para você.

A partir dali, entro em uma crise de ansiedade. Aceno por diversas vezes para ela e nada do meu cardápio. Uma vez que estava voltando à infância, penso na ideia de me jogar no chão e chorar. Mas provavelmente sujaria minha roupa. Decido esperar e logo sou recompensado. Não recebo um cardápio, mas um pequeno jacaré em minha mesa.

"Selfiegator"

“Selfiegator”

Todos dão risada, mas eu não me importo. Abro o jacaré e tenho vontade de me exibir para a alemãzinha ao lado. Quem manda aqui agora? O tio jaca! E ele está comigo. Passo os olhos pelas opções e encontro o Mac and Cheese. Faço o pedido para atendente, devolvo o cardápio chamativo (estava começando a ficar com vergonha) e fico na espera.

"MacARoooooooooooooo"

“MacARoooooooooooooo”

 

Passam-se alguns minutos e os pratos são servidos à mesa. Canecos de chope. Costelinha. Uma estética adulta pairava a mesa. Nada de amarelo, nossa cor era marrom. As facas estavam afiadas e logo despedaçariam toda aquela carne. Mas para colorir nosso jantar e deixar a mesa mais feliz, a garçonete invoca a minha infância e serve o meu prato.

Não bastasse ter que ir ao Outback, invejar uma menina de 4 anos e ler um cardápio em formato de jacaré, tenho o restante da minha honra adulta drenada pela louça chamativa e com uma logo que deixava bem clara as posições da mesa – eu era da ala Kids.

“Ala Kids. Nenhuma honra, muito queijo”

“Ala Kids. Nenhuma honra, muito queijo”

Não me importei, se ser adulto significa cortar coisas com uma faca bizarra e se alimentar com guarnições, eu prefiro a pureza das crianças, claro, com veias não tão puras assim depois de tanto queijo. A porção tem um tamanho bom para um adulto e para a obesidade infantil. Janto bem e, não bastasse a alegria de finalmente poder comer um prato por lá, vou me divertindo com o final do macarrão chegando e os personagens desenhados na louça sendo revelados. Com as garfadas, vou conhecendo o jacaré e sua turma e entendo que, naquele momento, estou seguro e eles são meus melhores amigos no mundo.

Quentinho e alimentado, termino meu chá e recebo a conta. Não lembro quanto deu, mas foi na casa de R$30,00, com bebida. Muito mais em conta do que havia gasto nas outras vezes ou do que foi gasto pelos adultos da mesa.

“Na Turminha do Jacaré WE TRUST!”

“Na Turminha do Jacaré WE TRUST!”

Noite encerrada, barriga cheia e uma velha certeza vem a minha cabeça: não há nada mais mágico do que olhar o mundo sob os olhos de uma criança. Ainda mais se você estiver no Outback com um cardápio em sua frente. Entre comer guarnições de adulto e Mac and Cheese em prato de jacaré, fico com a pureza de uma infância sem armadilhas. O mundo adulto é hostil, marrom e com poucas opções. Portanto, quando for ao Outback, lembre de uma coisa:

 

Conclusão

"Don’t Grow Up. It’s a Trap!"

Preços

Boy

Boy

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De Galera

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Ecoville


Informações

Nome: Outback
Telefone: (041) 3317-6737
Endereço: Rua Pedro Viriato Parigot de Souza, 600, Ecoville.
Horário de Funcionamento: Segunda a Quinta: Das 12h às 15h e das 18h às 23h. Sexta: Das 12h às 15h e das 18h à 0h. Sábado: Das 12h à 0h. Domingos e Feriados: Das 12h às 22h30
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5 Responses

  1. stefany says:

    Caramba, nunca ia pensar nessas opções! Sempre vou de sopa de cebola, é muito boa!!!

  2. Marcos Paulo says:

    Outback tem a melhor salada do universo: El Rancho Salad. Só pedir sem bacon.
    Outra coisa é a Pasta Primavera. 😉

  3. camilla Martins says:

    caramba! melhor narrativa/relato de sobrevivência vegetariana que já li! Viva o Menu Kids!

  4. Camila says:

    Eu achei essa porção GIGANTE (mas pode ser que na ocasião eu tenha ~estragado~ meu jantar com a tal cebola, sei lá) e é bem digna! E se a fome não tá tão grande, parto para as guarnições também – principalmente a batata recheada! Mas como sou dos doces, fico bem feliz com as sobremesas e ignoro fácil a comida salgada 😉

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